Papos Diversos, Parada Literária

Papo de criança é coisa séria!

Todos os dias quando eu chego do trabalho e Daniel não está na soneca da tarde, ele sempre tem muuuuito assunto pra conversar comigo. Conta tudo que fez e que viu nos desenhos. Não me deixa conversar com mais ninguém enquanto não tiver a atenção devida dada a ele. E não adianta tentar enrolar, caso eu não consiga entender alguma palavra. O prazer dele é falar e ser compreendido. Se ele notar que entendi algo errado, logo protesta enfaticamente: “Naaaaaao!  Né isso não!”. Deixar de dar ouvidos a ele, então, nem pensar! É procurar problema na certa. E por que deveria ser diferente, não é? Ele passa boa parte do dia sem me ver. Natural que queira aproveitar o tempo em que estamos próximos. Ontem ouvi de uma amiga que a filha dela se acalmou quando, deixando tudo o mais que tinha para fazer, ela se sentou e deu atenção somente à pequena.

Aprendo com isso que crianças necessitam de atenção genuína, interessada, não somente aquela obrigatória que diz respeito aos cuidados. Mas atenção gratuita, vamos chamar assim. Do tipo: estou com você porque quero estar e não somente porque você precisa de algum cuidado agora, como trocar fralda, alimentar etc.

Meu querido professor  (já me apossei dele) John Holt, com a ajuda do dr. Gareth Matthews, define maravilhosamente bem essa realidade, além dos outros aspectos da fala infantil que já comentamos aqui. Leia, a seguir, este trecho extraído do fantástico livro de Holt – Como as crianças aprendem:

“Há muito tempo penso que a intensa ira de muitos choros de crianças de 2 ou 3 anos vem, não por não lhes ser permitido fazer o que querem, mas sobretudo de acharem – às vezes com razão, às vezes sem – que não estão sendo compreendidas, ou pior, que ninguém nunca tentou entendê-las, que suas palavras estão sendo ignoradas ou desdenhosamente deixadas de lado. Mesmo que às vezes decidamos fazer a vontade das crianças curvar-se à nossa própria vontade, devemos prestar o máximo de atenção quando elas tentam nos dizer o que querem. Quando discuto com uma criança, julgo ser uma atitude no mínimo educada e respeitosa, além de muito útil nessa circunstância, dizer sempre: “Eu ouço o que você diz, compreendo que você quer isso ou aquilo e sinto muito por você estar brava e triste, mas não vou lhe dar essa bala (ou qualquer coisa que você queira que eu faça)”.
Mas costumamos falhar em compreender as crianças num sentido muito mais importante e profundo. Porque elas são tão pequenas, desajeitadas, desarticuladas e ingênuas, além de tão encantadoras (para aqueles que gostam delas), que podemos facilmente subestimar a seriedade de muitas de suas questões e preocupações, e ao mesmo tempo rir complacentemente delas ou ignorá-las em seguida. Em seu mais recente livro, muito pequeno e fácil de ler, mas também muito importante e profundo, intitulado Philosophy and the Young Child, o dr. Gareth Matthews, professor de filosofia da Universidade de Massachusetts, em Amherts, demonstra, com base em conversas mantidas com crianças – às vezes com seus próprios filhos -, que muitas das observações e perguntas ingênuas e imprevistas delas, que nós, adultos, tendemos a tratar como tolas e absurdas, são questões com as quais os grandes filósofos se vêm debatendo desde o surgimento da filosofia.
…………………..
No último capítulo do livro, Matthews descreve com alguns detalhes uma discussão filosófica com seu filho de 9 anos, que durou semanas e passou por importantes tópicos de filosofia, incluindo como podemos saber o que as palavras significam e também se e como poderíamos pensar se não dispuséssemos das palavras. Temos aqui um modelo de como os adultos podem e devem – mas tão raramente fazem – falar com crianças, porque mostra acima de tudo uma conversa entre iguais. Não que o adulto e a criança sejam ou finjam ser iguais em tudo: ambos sabem que o adulto tem muito mais conhecimento e experiência. Mas eles são iguais, primeiramente, porque agem como colegas, estão igualmente envolvidos na conversa, igualmente empenhados e desejosos de encontrar tanta verdade a respeito das coisas quanto possam conseguir. E são iguais porque o adulto trata a criança com o mesmo respeito com que gostaria de ser tratado por um colega, leva a sério seus pensamentos, suas interrogações e suas confusões da mesma maneira que gostaria que levassem a sério sua própria reflexão. Novamente, podemos apenas invejar crianças que tiveram adultos assim para conversar.”

Também acho! 😉

Beijos! Até a próxima lição do professor Holt.

* HOLT, John. Como as crianças aprendem. Tradução Walther Castelli Jr. Campinas, SP: Verus Editora, 2007, págs. 116-118.

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