Papos Diversos

Eu educo, tu educas, nós transformamos

“Criança se educa, cachorro se cria.” Relembrei essa frase no sábado, conversando com uma colega mãe muito agradável, que conheci no parque enquanto nossos pequenos tesouros brincavam. Gosto dessa frase. Não sei a autoria mas concordo plenamente. Isso quer dizer, na minha opinião, que educar dá trabalho. Nenhuma criança já nasce pronta – autoestrada, cheia de autocontrole e noções de certo e errado. Deus nos entrega a obra bruta e nós é que fazemos o acabamento. Algumas pessoas costumam observar as crianças e admirar sua educação,  bons modos, higiene,  gentileza,  e se encantam muito com elas, como se elas tivessem todo o mérito, como se não houvesse uma grande quantidade de trabalho dos pais envolvida nisso. Na verdade,  sempre que você vir uma criança – especialmente na faixa dos 2 a 4 anos – obediente e bem comportada, olhe para os pais com admiração. Só quem já teve  (e ainda lembra) e quem tem filhos nessa idade compreende o que estou dizendo.

Não é à toa que essa é uma das fases mais adoráveis dos pequenos!  São tão fofos com suas descobertas e a todo instante nos surpreendem com uma nova gracinha. Creio que as coisas são assim para incrementar nossa dose de afeição, do contrário, não sei o que seria. Ô fasezinha difícil!

E o pior é que nossa geração parece ter criado uma espécie de aversão a tudo o que remeta minimamente à idéia de autoridade. Parece que estamos confundindo autoridade com autoritarismo; firmeza com brutalidade; disciplina com ausência de liberdade; respeito com falta de amor. É preciso retomar as rédeas e agir com a serenidade e moderação que a situação requer. Ezzo (2013) nos diz que não devemos errar impondo restrições em excesso e nem deixar de impor as restrições necessárias mas, encontrar o equilíbrio entre uma coisa e outra.

Muitas vezes,  nós nos sentimos culpados por corrigir um filho que desobedece e desafia. Eles testam até onde podem chegar com a gente, até onde nós permitimos que cheguem. Mas anseiam, na verdade, por limites.  Limites seguros para sua exploração, que podem ser dados por pais cuidadosos e amorosos. Sim, amorosos! Todo o que ama de verdade corrige, porque sabe que a falta de disciplina levará a caminhos indesejáveis sob vários aspectos. A criança que não aprende a obedecer quando é ainda pequenina terá mais dificuldade em entender o conceito de obediência por amor, porque não criou o hábito do coração.

Como mãe ou pai, algumas de suas simples decisões e instruções terão oposição de seu filho. Então, o que você fará? Sentar e esperar que a criança ‘supere’ o comportamento, sufocar isso com seu poder e vontade ou treinar a criança com padrões corretos de conduta e hábitos do coração?  (grifo meu)

EZZO, 2012, pág 92

Estabelecer limites é nossa função como pais.  Limites não são ruins e essa é outra palavra também demonizada nesse tempo em que vivemos. É quando eu digo a meu filho de 2 anos e 8 meses que ele não pode tomar banho com o chuveiro ligado o tempo todo que ele internaliza a noção de limites para as suas vontades, para a satisfação dos seus desejos. Explico: não me parece razoável esperar até que a criança complete 5 ou 6 anos de idade para, ao ir com ela numa loja de brinquedos, tentar lhe ensinar ali, naquela hora, que ela não pode ter tudo o que deseja. Acho mais prudente ir dando à criança pequenas doses de entendimento sobre não ter e não poder ao longo do seu crescimento, para que ela aprenda a conhecer e lidar com essas sensações.

A famosa frustração. Tão desagradável e ao mesmo tempo tão necessária e real na vida de qualquer pessoa. Mesmo para os que têm vida abastada. Embora o exemplo dado envolva bens materiais, ninguém garante, por exemplo, que a garota cobiçada por um jovem irá corresponder a seus sentimentos, por mais rico que  ele seja. E como ele irá lidar com esta frustração? Se ele não está acostumado a experimentar situações onde seus desejos lhe são negados, provavelmente, não aprendeu a lidar com elas e pode reagir com violência, pode mergulhar em depressão, pode apelar para substâncias entorpecentes. São só algumas possibilidades. Cury (2003) nos lembra que a forma como ensinamos nossos filhos a lidar com as derrotas da vida é mais relevante do que como os ensinamos a lidar com vitórias. Na verdade, todos queremos que nossos filhos vençam em tudo e, às vezes, só os instruímos neste sentido, esquecendo de revelar, de forma correspondente à maturidade da criança, a face hostil da vida.

Por outro lado, por mais que se deseje isso, é também impossível manter uma criança em estado de satisfação constante, principalmente dos 2 aos 4 anos.

Você não poderá evitar decepcionar o seu filho, nem deve se preocupar com essa possibilidade. Em vez disso, treine seu filho a lidar com a decepção. Você não pode criar um ambiente livre de conflitos, porque a natureza da criança, seus padrões de crescimento e as expectativas dos pais vão entrar em conflito. Aprenda a lidar com isso. (grifo meu)

EZZO, 2012,  pág 28

E mais:

Conflitos com seu infante virão. Todavia, não é uma questão de encontrar o equilíbrio moral entre dois pontos de vista expressos de forma diversa (do pai e do infante), mas sim na educação e na insistência em um modo de vida que tem significado para a mãe (e) o pai…” (…)

EZZO, 2012, pág 89.

Dessa forma entendemos que uma dose adequada de frustração não é prejudicial, pelo contrário. Um conflito com uma criança é uma oportunidade de incutir nela os valores que você considera importantes.

Os conflitos de infantes são momentos de oportunidade para orientar, direcionar e moldar seu pensamento e direcioná-lo na direção de uma vida responsável.”

EZZO, 2012, pág. 89

Sorte a todas nós. Bons conflitos!

Referências:
EZZO, Gary e BUCKNAM, Robert. Educando Infantes – como criar filhos  de 2 a 3 anos. 1a edição. São Paulo: Universidade da Família, 2012: São Paulo.
CURY, Augusto. Pais brilhantes. Professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
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